Todos me olhavam como se eu fosse uma completa estranha, na verdade, eu sou uma completa estranha. Respirei fundo e andei em direção aquela mesa - que parece estar muito convidativa, aliás, eu tenho dezessete anos.. mas todos dizem que pareço ser maior de idade. Me sentei, e chamei o garçom.
- Moça, qual é a sua idade? - um menino todo desajeitado e com o cabelo lambido perguntou, suspirei.
- Dezoito, e não, eu não trouxe meu RG.. dá pra você me trazer algo forte?
Ele me olhou um pouco aflito, percebi que é novo na área, então dei uma gargalhada.. e me encostei ainda mais na cadeira.
- Meu querido, tá tudo bem.. não vou beber mais do que um copo.
- Só um?
- Prometo. - ergui minhas mãos em forma de juramento, e ele saiu, voltando logo em seguida com uma bebida colorida, agradeci e comecei a tomar rapidamente.. não demorou muito e eu já havia terminado aquela bebida, todos me encaravam. Qual é, nunca viram uma menina virando um copo de bebida.. tão rápido? E.. a promessa de só um copo foi por água a baixo.
Caminhei em direção ao ponto de ônibus, me sentei e coloquei meu fone de ouvido. Um menino talvez da mesma idade que a minha sentou-se ao meu lado, sem olhar pra minha cara.. as vezes ele olhava de lado, disfarçadamente, me fazendo rir.
- Sabe, isso tudo é uma merda. - eu disse, olhando pra frente.. sabendo que seu olhar logo estaria em mim. O silêncio reinou, como imaginei.. quem responderia uma louca que começa a falar sozinha no ponto de onibus? - sabe, tudo isso é definitivamente uma grande merda. - agora eu virei meu rosto, o encarando e percebi que seu olhar é curioso.. então ele apenas balançou a cabeça positivamente e olhou pra frente, ainda em silêncio. Ele sentiu meu cheiro de álcool, eu acho. - e você, não acha? - ele voltou a me olhar, e por um momento tive vontade de rir.. por que estou conversando com um completo estranho em um ponto de ônibus?
- Tudo depende do ponto de vista - deu de ombros, hum, ele me respondeu.
- Me diz sobre o seu..
- Nem tudo é tão ruim assim.
- Ah, claro, você.. um filhinho de papai, só pode - bufei.
- Não! - ele me olhou com uma cara nada boa, e depois sua expressão se suavizou.
- Desculpa, eu e minha mania de julgar os outros.. - revirei os olhos
Ele não falou mais nada, mas como sou insistente..
- Me fale alguma coisa boa disso tudo.
- Música, eu gosto de música e musica não é uma merda.. você não acha? - ele me olhou de lado, com um pequeno sorriso.. me fazendo sorrir involuntariamente também, é, eu gosto de musica.
- Tudo bem, musica não é uma grande merda.
- E chocolate, cara, chocolate é bom. - ele falava com um brilho no olhar. Então sorri novamente, ele tem razão.
- Mas.. eu falo sobre outras coisas, sabe?
- Como o que?
- Como estar sentada no sábado a tarde em um ponto de ônibus qualquer falando sobre grandes merdas e não merdas com um completo desconhecido!
- Faz sentido - ele disse, agora olhando pra frente.
- Me sinto sozinha.
- Você bebeu?
- Da pra sentir o cheiro, é?
- Também.
- Droga! - resmunguei, me ajeitando no banco e pegando uma bala de menta em minha bolsa.
- Você é nova.
- E você também, er. - revirei os olhos.
- Mas não estou bêbado em um ponto de ônibus em pleno sábado a tarde.
- Por quê você não é eu, e nem tem a vida que tenho e nem nada disso.
- Desculpa, não lido com problemas pessoais dos outros. - deu de ombros.
- Não quero que você lide com meus problemas, babaca.
- Nem me conhece e tá me chamando de babaca?
- Eu só acho que você está se achando demais..
- Eu to na minha, você que veio com papo de grande merda e outras coisas..
- Quer saber, vou procurar outro ponto..
Me levantei e comecei a andar, me sentindo um pouco tonta, senti uma mão em meu ombro e me virei parar olhar, é o menino..
- Não quero que você me siga. - disse, me enrolando nas palavras.
- Você esqueceu a sua bolsa, louca.
- Ah.. eu.. nossa - peguei a bolsa de sua mão - estou um pouco esquecida.
- Onde você mora?
- Interessa?
- To querendo te ajudar.
- Você não lida com problemas pessoais dos outros, me deixa.
- Vai, me deixa te ajudar.
- Por que?
- Pra você ver que nem tudo é uma grande merda, que as vezes.. as pessoas são legais.
- Isso não é verdade - bufei
- Estou sendo legal com você agora, não to?
Fiquei parada, olhando pra ele que agora tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios, é.. ele até que foi legal, dei de ombros, coloquei minha bolsa em minhas costas.
- Tudo bem, mas.. eu moro longe.
- Tudo bem.
Nós voltamos para o mesmo ônibus de antes, não falamos mais nada, apenas pegamos o ônibus e ele foi o caminho todo me segurando para não cair, já que fomos em pé. Quando falei que eu ia descer, ele desceu comigo.. o que me deixou frustrada.
- Você pode ir se quiser.
- Não quero - ele riu - vamos, aonde é a sua casa.
- Não vou mostrar aonde moro para um estranho.
- Isso é bom, mas não sou estranho.. passamos mais de uma hora juntos.. mesmo contando com os minutos em silêncio.
- Emocionante - revirei os olhos.
- Sou confiável.
- É, não me parece ser um aproveitador - bufei - vamos, é pra cá.
Nós começamos a andar e eu percebi que ele estava a todo momento rindo, o que me deixou irritada.
- Por quê você ta rindo de mim?
- Não to rindo de você, é só que.. tudo isso é muito engraçado.
- Me conte a piada.
- Não é piada, é só que.. nem sabemos o nome um do outro.
- Isso não é engraçado, só estranho.
- Você é bem chata.
- E você um bocó que fica rindo sozinho. - revirei os olhos e parei em frente ao portão da minha casa.
- Andar de ônibus é uma grande merda.
- É, agora sim estamos falando a mesma lingua - gargalhei - e aquelas pessoas que ficam olhando fixamente pra sua cara sem desviar o olhar por um segundo? Caramba, isso sim é uma grande merda.
- E não tem como fugir..
- Não, só torcer pra chegar logo aonde você quer. - ri
- Você vira outra pessoa quando fala sobre grandes merdas.
- Quem vê pensa que você me conhece muito bem - dei risada - meu nome é Alana.
- O meu Luan.
- Só falei meu nome por que provavelmente não nos veremos mais.
- Nunca se sabe..
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Caminhos cruzados
Nunca pensei no amor com tanta naturalidade como agora, olhar pra ele me faz suspirar.. e é tão bom que acabo sorrindo logo em seguida, é um sentimento tão completo e complexo que a sensação que tenho é que a qualquer minuto meu coração irá sair do meu peito, é estranho, por quê apesar de tudo, apesar da calmaria que ele me traz ao sorrir.. também vem o medo, medo de um dia tudo isso simplesmente acabar e não é que eu não seja capaz de viver sem ele, eu sou, aliás.. vivi por muitos anos sem nem ao menos saber de sua existência, mas a questão é que agora eu sei, e, sei também qual é a sensação de estar colada em seu corpo, sentindo sua respiração se misturar com a minha, sei como é deitar do lado dele e sentir suas pernas se entrelaçar com as minhas, vai ficar tudo mais difícil quando o mundo decidir me acordar.. e isso está me doendo desde já, sei que sobreviverei sem ele, só não sei se será um caminho do meu agrado..
Assinar:
Postagens (Atom)